domingo, 18 de agosto de 2013

A violência não pode ser banalizada!

Depois de quase dois meses sem escrever, volto. A pausa se deu por um conjunto de motivos: falta de tempo, porque a rotina alucinada nos esmaga; trabalhos da especialização, que também tem me consumido bastante, mas principalmente a falta do que escrever. Não que faltem assuntos, eles são abundantes sempre. Mas faltou o ímpeto, aquela alavanca que me faz colocar o notebook no colo, estralar os dedos e "mãos à obra".

Após as manifestações me deparei com uma cenário que, de certa forma, me preocupou - pra não dizer que entristeceu. Vivo logada no facebook, mantenho, através dele, contato com amigos e familiares que estão distantes, acompanho suas vidas e compartilho um pouco da minha, mas vi nesse período intenso de manifestações, as timelines da vida se tornarem verdadeiras arenas. Uma agressividade surgiu dessa disputa por foco e poder que, a meu ver, ultrapassou todo e qualquer limite aceitável no calor das disputas políticas. 

Pensando em tudo isso, refletindo, questionando o que vi, li, e provavelmente até postei, cheguei a uma conclusão - que não é necessariamente conclusão porque com o passar do tempo vemos que nada é tão definitivo - FALTA AMOR!

Falta amor das pessoas umas pelas outras, falta amor do estado pela população, falta amor - muitas vezes - da população pelo país, falta amor pela educação, falta amor pela família, falta amor pela vida. A falta de amor acarreta em desrespeito, e foi isso que vi. Preferi me retirar desse ambiente de gladiadores de "direita" e "esquerda" e ficar nos bastidores conversando, mediando e - sempre - refletindo. 

No entanto... 

Ontem, ao voltar da PUC com meu esposo, o ônibus em que estávamos foi parado em um pedaço do trajeto onde o tráfico e a violência de maneira geral são bastante presentes. Um policial entrou no veículo e ordenou que todos os homens saíssem com seus pertences, e que as mulheres permanecessem onde estavam e abrissem suas bolsas. Meu esposo e todos os outros saíram tranquilamente em direção a calçada. Enquanto isso uma policial entrou e revistou os pertences das mulheres. Ela agradeceu, desejou boa noite e bom descanso a todas. Até aí tudo bem, minha única apreensão era a de ser assaltada ou sabe-se lá o que, enfim, nessas horas tudo passa pela cabeça de uma pessoa medrosa - como eu. 

Mas quando olhei para fora fui tomada por um sentimento misto de asco e decepção. Todos os homens estavam emparedados como marginais, sendo revistados da maneira mais humilhante. Lógico que se eu tivesse visto homens que eu não conhecia teria ficado apenas chocada e decepcionada com uma abordagem desnecessária, um abuso de poder. Mas quando vi meu esposo, que estava voltando pra casa depois da aula conversando sobre a mesma e tudo mais - sendo tratado como um bandido, a fúria foi imediata. 

Enquanto os homens ainda estavam fora do ônibus, duas moças conversavam sobre o porquê dessa abordagem, e uma delas disse que há uma semana o irmão tinha sido assaltado exatamente no local onde estávamos parados. Nesse momento a cobradora da linha T1 interviu bastante irritada quase gritando que tem que se fazer mesmo porque semana passada foi pego um "colega nosso" com droga no ônibus. Nesse momento não consegui me conter. Disse que meu colega não era, e ela respondeu: "é sim, é da PUC". Ou seja, todos os milhares de alunos da PUC carregam, ou vendem, ou usam, ou sei lá eu o que...drogas! Achei melhor não falar mais nada devido a tensão do momento e a minha provável falta de filtro somada ao nervosismo. 

Os homens entraram no ônibus, o percurso seguiu, mas mesmo depois de ter chegado em casa não consegui digerir. Não deu. Por que não orientar os homens para abrirem suas mochilas? Por que não dar a eles o mesmo tratamento dado as mulheres que ficaram no interior do veículo? Por que uma truculência seguida de humilhação desmedida? Por que essa necessidade (desnecessária) de mostrar serviço? Mostrar a quem? Por que não agir com ênfase assim no núcleo do problema, que é no interior daquele bairro e de tantos outros onde o tráfico corre solto? O que fariam se encontrassem uma quantidade irrisória de qualquer coisa em alguma mochila, considerando que porte não é crime? Não estou dizendo, com isso, que é certo ou errado, mas apenas que de acordo com a nossa legislação, porte não é crime. 

Com tudo isso lembrei de um discurso do professor Vladimir Safatle, "A democracia para além do estado democrático de direito", que meu esposo até compartilhou um dia desses em suas incansáveis críticas à Brigada Militar, mas que me foi apresentado através de um dos professores da especialização que me inspira grande confiança e segurança para esse tipo de debate por ter em sua fala sempre a relação (ou falta de)  entre Direito X Justiça. Enfim, em seu discurso o professor Safatle expressa que a democracia não deve depender de instituições que funcionam mal, e, pra mim, a brigada/polícia militar na forma com que se apresenta hoje é uma das instituições mais falhas da nossa sociedade. 

Hoje, coincidentemente, o tema da aula foi bullying e violência escolar, e em um dado momento socializei o fatídico acontecimento da noite anterior. A primeira coisa que ouvi foi: "garanto que se estivesse do outro lado apoiaria a brigada". QUE LADO? Pra mim existem dois lados: o opressor e o oprimido. Se um dia me coloquei como opressora foi de maneira inconsciente, e me policio para que isso não aconteça, não apoio de maneira alguma nenhum tipo de opressão, truculência, chamadas de atenção sem contextualização, enfim, fiquei impressionada com o comentário. No mesmo assunto surgiram outros comentários do tipo "se você tiver um filho e ele sofrer bullying você exigirá uma atitude da escola, mas duvido que se for ele a praticar você admitirá uma intervenção da mesma maneira". Pois respondo aqui que SIM, admitirei. Até porque não tem gostar ou não gostar de uma ou outra medida, a escola precisa quebrar essa corrente de violência trabalhando o ser social com seus estudantes e suas respectivas famílias. Até porque, se o meu filho (a) se tornar um adulto truculento e violento, sem limites e noções, não caberá a mim gostar ou não, por exemplo, que ele seja preso. Se o mesmo fizer alguma coisa que, de acordo com a legislação, o leve a isso, que poder de decisão baseado no "gostar" ou "não gostar" eu terei? Nenhum. Quem disse que educar é fácil? Quem disse que romper paradigmas é fácil? Quem disse que reforma social é fácil? O papel de educar e orientar é sim da família, mas sejamos sinceros na análise da nossa realidade: muitas famílias não tem condições de dar essa orientação, então ela precisa partir da escola. As iniciativas precisam ser da escola para que um dia o quadro mude, para que esse estudante que foi beneficiado com a interferência seja um pai ou uma mãe mais presente amanhã.

Disse ontem, disse hoje pela manhã e continuo dizendo: a violência está institucionalizada e, por mais que isso seja gravíssimo, não é o mais preocupante. O mais sério é que as pessoas estão cada vez mais acostumando-se com isso, achando normal, achando que faz parte...Não é normal. Não é correto. Não é o caminho.

Por fim eu, que sempre fui e continuo sendo tão contra a generalização, não quero aqui generalizar e dizer que todos os policiais são o retrato da truculência e da opressão. No post Não é por 0,20 centavos fiz menção à Coronel Claudia Romualdo que, exercendo plenamente sua cidadania, viabilizou uma manifestação tranquila e pacífica em Belo Horizonte. 

Mas quero sim chamar atenção para um grupo de maus profissionais que infelizmente ganha o foco pelas atrocidades cometidas. 

Para terminar tinha pensado em colocar a letra da música Fix You, do Coldplay, que ouvi hoje a caminho da aula pensando o quanto a primeira estrofe tinha relação com como eu estava me sentindo - "When you try your best, but you don't succeed / When you get what you want, but not what you need / When you feel so tired, but you can't sleep / Stuck in reverse...", mas tem outra que simplesmente não pode passar batida hoje, em especial. E com essa me despeço!


"Dizem que ela existe pra ajudar!
Dizem que ela existe pra proteger!
Eu sei que ela pode te parar!
Eu sei que ela pode te prender!

Polícia!
Para quem precisa
Polícia!
Para quem precisa de polícia...

Dizem pra você obedecer!
Dizem pra você responder!
Dizem pra você cooperar!
Dizem pra você respeitar!

Polícia!
Para quem precisa
Polícia!
Para quem precisa de polícia..."



terça-feira, 18 de junho de 2013

Porto Alegre, 17 de Junho de 2013!

Ontem, ao chegar da manifestação, postei o que vi da mesma na minha timeline. Mas pra não deixar passar batido o fato de que tudo que penso posto aqui, trarei pro blog o relato e as fotos que julguei significativas!

"Quase duas horas depois de chegar em casa consigo parar de ler tudo que vai sendo postado e escrever o que achei do protesto:


- Começou lindamente com pessoas de todas as idades em frente a prefeitura, os cartazes (em todo o Brasil, por sinal) eram geniais, os cantos entoados também. Na hora que a galera toda cantou o hino do Rio Grande, cara...que arrepio. Lição de cidadania!


- Quando a passeata saiu e começou a subir a Borges de Medeiros, muitas pessoas apareceram nas janelas dos prédios aplaudindo e balançando panos brancos nas janelas. Uma até estava com um tamborim acompanhando o batuque da galera. Lindo demais!!

- Quando passamos por baixo do viaduto da Salgado Filho vimos uma faixa gigante escrito "RBS (Globo) MENTE" e a galera cantava "RBS, pode esperar, a sua hora vai chegar...". Sinal de que as pessoas estão finalmente enxergando que existem mídias e mídias...

- Enquanto descíamos a Av. João Pessoa, um rapaz de roupa preta e capuz pichou alguns prédios...e todas as vezes que ele fez isso o pessoal entoava vaias e gritava "SEM VANDALISMO"...

- Ao passarmos pela concessionária da Volkswagen em frente ao colégio Julio de Castilhos, um grupo de três ou quatro rapazes picharam a parede da frente e quebraram um vidro. Foram reprimidos imediatamente pelos manifestantes que estavam perto e saíram correndo (passaram, inclusive, correndo bem na nossa frente que até tivemos que dar um passo pra trás);

- Entre um QG do PT e do PMDB duas pessoas se desentenderam, mas antes que tomasse qualquer proporção, os manifestantes que estavam próximos separaram e ficou tudo bem. Imagina se a brigada [polícia] militar tivesse interferido...tinha virado pancadaria ali mesmo;

- A manifestação seguiu tranquilamente, tudo na mais santa paz, até chegarmos na esquina da Av. João Pessoa com a Av. Ipiranga. Ali, um grupo de 3 ou 4 rapazes quebrou toda a vitrine de uma concessionária da Honda. Os manifestantes interferiram, mas não conseguiram impedir o vandalismo. Depois que os vândalos (sim, esses são vândalos mesmo) fugiram, a manifestação virou na Ipiranga em sentido ao prédio do jornal Zero Hora (RBS). Eu e o Diego (meu marido) viramos a Ipiranga no sentido PUC, lado contrário da manifestação, por dois motivos: ficaria melhor pra pegarmos ônibus pra voltar pra casa, e em segundo lugar,  o marido falou que provavelmente a polícia estaria em frente ao prédio do jornal, então era mais prudente não irmos. 

- Quando estávamos em frente ao hospital Ernesto Dornelles, olhamos para trás e vimos uma sirene que, pela distância, imaginamos estar em frente ao prédio do jornal. Comentamos que pra barbárie começar a acontecer era questão de tempo. Nesse exato momento ouvimos muitos tiros, a fumaça levantou e foi uma correria desmedida. Quando cheguei em casa vi as fotos mostrando que quando os policiais atiraram a manifestação estava super longe...eles estavam atirando a esmo por pura sede de sangue. Enquanto isso as pessoas não pararam de bradar, em momento algum, "SEM VIOLÊNCIA"...

- Enquanto ainda estávamos no ônibus, acessamos do celular o site clicrbs pra ver o que estava sendo noticiado e, adivinhem: "Manifestantes e polícia entram em confronto na Avenida Ipiranga". Gente...socorro...a reportagem deixa a entender que os policiais agiram para dispersar os manifestantes devido ao vandalismo na loja da Honda, mas quero lembrar que os policiais estavam vestidos para guerra há duas quadras de distância ESPERANDO os manifestantes chegarem pra sentar porrada. Não foi pela concessionária, pois os policiais nem viram isso acontecer. Eles estavam esperando de ESPREITA. Estava anunciado que quem chegasse a frente da manifestação no local de destino, apanharia!

- Infelizmente existem sim os vândalos que se usam dessas situações para suas imbecilidades, mas um grupo de 10/15 mil pessoas marchando em paz não pode pagar o pato. Infelizmente esse mínimo grupo de desordeiros tiram os argumentos de quem leva a coisa a sério, porque eu queria ver o que essa mídia nojenta divulgaria como razão para a barbárie da brigada militar se não houvesse o episódio da esquina. 

- Depois da barbárie iniciada COVARDEMENTE PELA BRIGADA MILITAR, a confusão se instituiu: grupos em vários lugares queimaram contêineres de lixo, incendiaram ônibus, incitaram a violência, etc etc etc...no entanto quero lembrar que aprendemos, desde crianças, que violência gera violência. Não defendo quem tem essas atitudes, mas quero lembrar que elas foram resposta pela atitude da polícia, e não o que causou a truculência...

- Quanto mais leio e assisto as notícias sobre a manifestação, mais nojo e raiva me dá...eu estava lá, eu vi...eu ouvi...eu senti o desespero das pessoas correndo de covardes incompetentes armados, ouvi o motorista e o cobrador do ônibus (T1, pra quem conhece) fazendo piadinhas chamando a todos de desordeiros e desocupados e atribuindo, quando os passageiros entravam no ônibus lotado, a responsabilidade pela lotação à manifestação que bloqueou o trânsito. Engraçado né, em todos os outros dias ela se deve a quê?

- Mas o melhor de tudo é que, como disse o PVC, não se sabe como isso tudo vai acabar, mas a galera estudará o dia 17 de Junho de 2013 no colégio e na faculdade...

Vou dormir muito feliz por ter, pelo menos por hoje, feito minha parte!

"PRA COPA DIGO NÃO...QUERO DINHEIRO PRA SAÚDE E EDUCAÇÃO...""



Hoje, 18/06, no Jornal do Almoço, o foco foi quase que totalmente o prejuízo que as manifestações causaram. Quero lembrar que elas NÃO CAUSARAM PREJUÍZO NENHUM, o que causou foi a barbárie que se seguiu depois. 

Quero parabenizar novamente os canais ESPN por, apesar de ser um canal com temáticas exclusivamente esportivas, estão fazendo a melhor cobertura de todas quanto as manifestações. 

Bora lá, dia 24/06 tem mais...

#ogiganteacordou

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Queria ter gravado mais, mas não dava tempo. 

 Começando os trabalhos...

"Jogaram mentos na geração Coca-Cola"
                                 
Vândalos. No, wait...

Manifestante batucando na sacada

Casa do estudante - UFRGS

  "Diminuam a tarifa e mandem a conta pra FIFA"

Isso sim causou prejuízo...

A foto que mais retratou a covardia!


domingo, 16 de junho de 2013

Não é por 0,20 centavos.

Eu tinha em mente, até metade da semana, outro tópico para escrever. No entanto, é impossível ignorar tudo que está acontecendo com relação ao Movimento Passe Livre, é impossível deixar de registrar minha opinião tanto sobre o momento histórico que estamos vivendo quanto sobre a repercussão do mesmo.

O título do post se dá porque tenho ficado extremamente indignada ao ver que uma mídia manipuladora faz questão de perguntar: “mas todo esse vandalismo por causa de 0,20??”.

Não...não é por isso. Quero organizar meus argumentos em cima da fala do [pseudo] jornalista Arnaldo Jabor. Ele começa perguntando “o que provoca um ódio tão violento contra a cidade?”. Pois então, querido Jabor, o ideal seria perguntar isso aos policiais militares que, mesmo com os MANIFESTANTES (e não vândalos) gritando “SEM VIOLÊNCIA” a plenos pulmões, avançaram para os mesmos com uma fúria desmedida. Existem imagens de todos os ângulos que registraram  a truculência e repressão da força policial. Nem vou comentar o fato de comparar os manifestantes com facções criminosas que queimavam ônibus, porque me causa um asco tão grande tal comentário, que eu nem conseguiria terminar de escrever. Em seguida afirma com veemência que no meio dos protestos “não havia pobres que precisassem daqueles vinténs”, alegando que quem estava nas ruas eram filhos da classe média. Eu não conheço as pessoas que ali estavam, mas não acredito em tal afirmação. Mesmo que fosse verdade, que sorte da sociedade ter seres humanos altruístas que pintam faixas e vão para as ruas lutar por uma causa que não é de todo sua. De qualquer maneira, como eu disse, no protesto “dos vinte centavos” está uma manifestação política que estava, há muito, adormecida; uma juventude bradando por um país melhor, mais digno e pleno. Nosso querido Arnaldo segue seu derrame de hipocrisia declarando que “talvez seja influência da luta na Turquia, justa e importante [...] mas aqui, se vingam de quê?”...ora, querido comunicador, não se vingam de nada, apenas fizeram jus ao marketing de que “a rua é a maior arquibancada do Brasil”, e nessa arquibancada expressam sua indignação com o pouco caso que nós todos, inclusive Vossa Senhoria, sofremos com os rumos da nossa política principalmente nessa época sombria da nossa história que antecede a copa do mundo e uma total contingência sobre o amanhã. Quase no fim interroga: “por que não lutam contra o Projeto de Emenda Constitucional 37? [...] Talvez eles nem saibam o que é PEC 37...”. Sim, nobre senhor, eles sabem. Tu é que não tivestes sabedoria e amplitude (ou simplesmente vontade) de interpretar que essa luta é uma das muitas que permeia os tais 0,20. Não subestime uma juventude politizada, não se preste a um papel tão ridículo... Termina afirmando que “esses revoltosos não valem nem vinte centavos”. Quem não vale, querido amigo, és tu, que tem um grande espaço na mídia para falar o que bem entender sem precisar levar bomba de polícia, cheirar gás lacrimogêneo, levar tiro no olho, ser agredido e humilhado... e nem assim tens a dignidade de fazer valer sua cidadania e sair da sua bolha burguesa e limitada.

Em contra partida ao comentário repulsivo supracitado está o quase desabafo do apresentador João Carlos Albuquerque, do canal ESPN, chamando o protesto de protesto e os manifestantes de manifestantes (não usou, em momento algum, o termo vandalismo), dizendo que SIM, as manifestações acontecerão em massa agora porque nesse exato momento o mundo inteiro está de olho no Brasil. É a hora da voz do povo ser divulgada, e não a de uma política que camufla as informações e só “vive essa energia”. Parabéns a ESPN por ter jornalistas de verdade fazendo um trabalho limpo e imparcial, enquanto as grandes redes são verdadeiras massificadoras sociais (para não usar termos mais fortes).

Somado a tudo isso veio um trabalho que um colega apresentou na pós ontem, onde trouxe citações de Zygmunt Bauman falando que muitas vezes é mais prudente se ter medo de quem cumpre a lei, do que de quem a descumpre. Haveria afirmação mais pertinente que essa para o post de hoje? Não. Na ditadura getulista os “cabeças de tomate” causavam total terror à população por “cumprirem as ordens” de um regime ditatorial. Durante o nazismo, a Gestapo tinha um poder terrorista ainda maior por cumprir as ordens de Hitler. Com o passar dos anos muitas lutas acarretaram em muitas conquistas, inclusive a “democracia”, que coloco entre aspas porque acredito que ainda precisamos evoluir muito para chegar a ela. Digo isso porque a postura da tropa de choque da polícia militar reproduziu a repressão dessas duas forças do passado, calando a voz do povo em uma luta onde um lado portava armas e o outro, a voz.



É preciso refletir sobre até que ponto podemos defender que vivemos em uma democracia onde existe o direito (inclusive constitucional) de manifestar o que quer que seja. Acredito que nessa última semana em particular isso foi colocado em cheque. No entanto, para servir de alento, hoje circulou nas redes sociais a atitude honrosa da Comandante do Policiamento de Belo Horizonte, Coronel Claudia Romualdo, que contrariou liminar proibindo protestos e viabilizou uma manifestação pacífica tanto para os manifestantes, que puderam expor seu protesto; quanto para os policiais, que apenas abriram caminhos para que a democracia acontecesse. PARABÉNS Coronel, e que muitas Claudias apareçam por aí.

O apoio às manifestações vem de todos os lugares, inclusive do exterior. Isso sim é mundialização. Isso sim é globalização. Não é todo mundo ter o mesmo computador, o mesmo celular, ouvir as mesmas músicas, tirar férias nos mesmos destinos...é o mundo se mobilizar por uma mesma causa: a da justiça – não judicial, mas sim, humana.

Paris

Dublin

Nova Iorque

Berlim

Parabéns aos manifestantes, pela atitude e coragem. Parabéns aos brasileiros e estrangeiros que, de onde quer que estejam, mandam mensagens de apoio à “revolução”.  Parabéns aos manifestantes que sabem sair de casa e ter a grandeza de serem melhores que aqueles que os coagem. Parabéns  pouca mídia que retrata, realmente, o que está acontecendo. Parabéns a quem não desiste de lutar, não desiste de pintar a cara e gritar por um país melhor. Parabéns aos blogueiros (que também são mídias) que não param de divulgar o que [realmente] acontece.

Professor carregando policial ferido durante a manifestação pelo aumento salarial. Manifestação essa que os professores também foram tidos como vândalos.

Que vergonha da polícia militar, pela truculência e postura indesculpável com os manifestantes e jornalistas que cobriam as manifestações, que vergonha (ainda maior) de quem manda que isso seja feito, que vergonha da mídia vendida que prefere dizer que não temos motivos pra lutar, que vergonha do cidadão que não entende a importância dessa luta e prefere fazer coro a quem chama esses revolucionários de bandidos...que vergonha de tão pouca gente se mobilizar.


Não vivi a ditadura militar, não vivi as diretas já, não vivi a transição de regime político...mas vivo o Junho de 2013 e daqui a muitos anos contarei aos meus filhos que pude ver a história acontecer...pude ver uma mudança ser gerada em meio ao sangue de quem brigou por ela. Daqui alguns anos essa luta estará nos livros de história e as crianças e adolescentes poderão se orgulhar de quem exerceu seu papel de cidadão. Utopia? Pode ser, mas se não a tivermos, de que vale viver?


segunda-feira, 10 de junho de 2013

Feliz dia dos...namorados!

Esse é, talvez, o post mais difícil de escrever até hoje. São 7:36 da manhã, perdi o sono e estou tentando fazê-lo desde as 6:30. Escrevi um monte, e quando li estava muito longe do que eu realmente queria escrever. Comecei tudo de novo. Agora vamos ver se vai...

Com o dia dos namorados chegando fiquei muito tentada a escrever sobre uma questão complicadíssima por ser extremamente delicada e difícil: a crise dos relacionamentos. Aí quem lê pode pensar: “que nada...grande coisa, qualquer um pode falar de começos e términos de namoros e casamentos...”. É difícil escrever porque o foco não é esse. O foco é o relacionamento de forma muito mais ampla, o relacionamento da humanidade com ela própria.

Nas aulas da pós é muito comum os professores abordarem a crise de paradigmas que estamos vivendo, e eu, particularmente, acredito que a crise de relacionamentos é a grande responsável: explico. Há algum tempo não dou aula. Trabalho no comércio em um grande shopping e observo o desespero das pessoas perto de datas como dia dos namorados, dia das mães, Natal... Muitas vezes estão até de mau humor comprando os presentes, porque simplesmente não querem estar ali, é pura e simplesmente uma obrigação imposta pela sociedade de modo geral.

Quando observo isso fico me perguntado: onde estão as manifestações singelas, gratuitas e sinceras de amor? Causa-me estranheza ver, por exemplo, um filho que trata sua mãe com indiferença bater perna no shopping para encontrar um presente. Assim como uma pessoa que tem uma relação estagnada correr atrás de presente para o dia dos namorados, pais ausentes enchendo o filho de presentes no dia das crianças, pessoas com listas imensas de presentes de Natal para outras que elas não tem a menor afinidade...

Essa crise que se estabelece de forma sutil e traiçoeira atinge esferas inimagináveis. Digo isso porque hoje a política e a sociedade vivem, quem sabe, o ápice da crise do seu relacionamento. Vejo uma parcela cada vez maior da sociedade insatisfeita com a negligência da política para com a população. Negligência essa que coloca mais lenha na fogueira de outras crises: a crise do doente com o SUS, do professor/aluno com o ensino público, da população em geral com a segurança...os relacionamentos estão em colapso, e em meio a uma rede de crises cresce cada vez mais um mediador bastante negativo que, ao invés de colaborar para que caminhemos em direção ao “felizes para sempre”, faz questão de cultuar o “ninguém sabe, ninguém viu”: a mídia.

Um exemplo: semana passada eu e meu esposo, como fãs incondicionais da Legião Urbana, fomos assistir ao filme “Faroeste Caboclo”. Como tínhamos visto o trailer já baixamos nossa expectativa pra decepção não ser tão grande. Mas foi. Considerando a riqueza da música e todo o contexto político que a permeia, o filme poderia ter sido riquíssimo, uma crítica social digna de Adorno. Mas não, foi um filme de elenco global que frisou, como não poderia deixar de ser, a balada de Brasília, o uso de drogas em demasia e a banalização do sexo. Não que a música não tenha isso, mas toda a riqueza política foi posta de lado. Toda a crise de relação do protagonista com a sociedade foi varrida pra debaixo do tapete e um dos maiores clássicos dos anos 80 virou produto da tela grande pra vender bilheteria. É que a realidade de quase trinta anos atrás ainda é a mesma, e ela ainda incomoda.

Um dos maiores problemas da sociedade hoje é a preocupação generalizada com a dependência química, que se espalha como fogo na pólvora. Essa dependência, a meu ver, é um produto também de uma crise de relacionamento. É uma crise, quem sabe, mais pontual, pois se dá com o indivíduo em crise com ele mesmo, no entanto tem como catalizador algum tipo de caos: ou na família, ou na (falta de) aceitação da sociedade, em uma dificuldade de se enquadrar em determinado grupo...enfim, principalmente na adolescência ela explode e é difícil contê-la. Por isso, enquanto os dependentes químicos forem tratados como marginais e depositados em celas carcerárias, o quadro continuará aumentando. O poder judiciário tem alcance até onde a lei pode ir. A crise de relacionamentos entre pessoas com pessoas, pessoas com sociedade e pessoas com elas mesmas jamais poderá ser sanada com uma sentença.

Ainda não sei se consegui expressar o que eu queria quando me propus a escrever sobre a crise nos relacionamentos, porque é difícil articular um assunto que tem tantas ramificações e, principalmente, tantas causas. Mas depois de só problematizar espera-se que se aponte uma solução, não é?! Porque afinal, a crítica só é construtiva se seguida de uma sugestão. Pois bem, a essa altura não sei o que dizer.

Sou utópica, graças a Deus, e acredito que a resposta para a crise esteja no retorno às origens. Edgar Morin em seu livro “a minha esquerda”¹ diz que é preciso conservar para revolucionar e revolucionar para conservar. Acredito numa recuperação de valores, de respeito, de afetividade, de sinceridade...de mais demonstrações e menos consumo, de mais solidariedade e menos austeridade, de mais coletivismo e menos individualismo, que as relações voltem a ser qualificadas e deixem de ser quantificadas...de uma democracia real, e não camuflada pela política politiqueira e a mídia que a sustenta.

Eu acredito que as pessoas voltarão a ser felizes com a simplicidade, que o vazio e muitas vezes a solidão que a modernidade e a autonomia trouxeram será preenchido não mais com drogas ou dinheiro, mas com a felicidade – mas essa cada um precisa descobrir a sua.

E já que foi citada, fica uma das melhores músicas já compostas. Faroeste Caboclo retrata toda a crise de relacionamento de um homem com ele mesmo, com as pessoas e com a sociedade...


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¹ MORIN, Edgar. a minha esquerda. Porto Alegre: Sulina, 2011. 



segunda-feira, 27 de maio de 2013

Relações de poder ou poder de relações???

Vou acumular, nesse post, assuntos de duas semanas porque eles estão intimamente ligados. Desde que voltei a estudar estou escrevendo praticamente só sobre coisas da pós. Quem acompanha o blog vai acabar estudando junto comigo. Mas não mudei, por isso, minha escrita, pois apenas aproveito os ganchos que surgem em sala de aula para continuar, com sempre, expondo minha opinião sobre as coisas que me cercam.

O assunto central do post de hoje começou na aula de sábado, 18 de Maio, onde assistimos ao filme “A Onda” (Die Welle), filme alemão que traz a história verídica de um grupo de alunos que em um curso de uma semana tem sua vida mudada. Ao trabalhar o tema “Autocracia”, o professor percebe no grupo uma certeza de que o nazismo jamais voltaria a acontecer, que a sociedade estava, por assim dizer, “vacinada” desse mal. Baseado nisso, monta com os alunos um grupo intitulado “A onda”, levando em consideração as normas de conduta, espírito coletivo, disciplina e a busca de um bem maior. Esse grupo tem um impacto diferente em cada um que faz parte dele, impacto esse que depende do contexto familiar, e principalmente do contexto social dos adolescentes. Eles passam a se defender entre si – mesmo os que anteriormente tinham alguma diferença – porque “um grupo unido é mais forte”. Ao final da semana devido a uma cadeia de acontecimentos o professor se vê obrigado a desmanchar o grupo, pois as atitudes do mesmo tomaram proporções que fugiram do controle de todos. Esse término foi extremamente traumatizante e trágico, mas fica a lição de que É SIM possível, mesmo depois do mundo conhecer as consequências do nazismo e do stalinismo, um bom articulador manipular um grupo de pessoas atacando suas principais carências e necessidades e usar disso para, sorrateiramente, impor seus ideais e mobilizar uma sociedade para segui-los. Foi o que fez Hitler, foi o que fez o professor (com o objetivo de mostrar que isso ainda era possível), e cada qual em seu grau de proporção, é o que as relações de poder fazem.

Aí entra a aula de sexta, 24/05, onde o tema foi Foucault. A parte de sua obra abordada resumidamente na aula foi exatamente o que diz respeito às relações de poder. O pensador defende que toda relação de poder é repressora, por mais que possa servir para dar voz e vez para aquele que era oprimido e marginalizado, em algum momento esse poder se tornará repressor.

Toda a discussão riquíssima de sexta fez, pelo menos pra mim, um link direto com a aula de sábado, 25/05, quando o professor Rogério Maia Garcia, professor do curso de Direito, veio a convite à minha turma falar sobre a questão dos tóxicos e contextualizar, através de uma linha do tempo no que diz respeito à legislação que abrange o tema, o impacto desse problema na sociedade. O que se seguiu foi uma abordagem clara e prática do que representa a droga propriamente dita no sistema carcerário, o impacto direto na sociedade e como isso tudo vem sendo tratado pelas políticas públicas. Foi inevitável não citar a notícia do momento: o Projeto de Lei 7663/10 do Deputado Federal Osmar Terra, que defende a internação compulsória do dependente químico. Não entrarei aqui em detalhes, caso contrário o texto ficará mais extenso do que está caminhando para ser, mas a lei – caso promulgada – dará um tratamento completamente arbitrário e levará para a instância judicial um problema que é, acima de qualquer outra coisa, de saúde pública.

Tudo isso, a meu ver, está interligado. Explico: o filme, a discussão sobre Foucault e a internação compulsória tratam das relações de poder. No filme o professor reproduz com seus alunos o impacto do poder exercido sobre um grupo de pessoas em uma das épocas mais sombrias da história da humanidade; e o projeto do Osmar Terra (e fico feliz ao perceber que esse não é um ponto de vista apenas meu, mas de muita gente) vem através das relações de poder da política X povo e o auxílio total da mídia, convenientemente visar tirar da rua o dependente químico que está “enfeiando” as cidades justamente pouco antes da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016. É, como tenho ouvido muito ultimamente, uma higienização social para maquiar uma realidade.

O projeto desconsidera o grau dependência do usuário, assim como a falta total de estrutura para os dependentes que hoje, voluntariamente, procuraram internação e não encontram. O que se sugere caso o número de internações aumente desmedidamente? Nada. Ouvi ainda hoje o Deputado afirmando que as internações não necessariamente acontecerão em clínicas especializadas, mas também em leitos comuns de hospitais. Onde está o caráter recuperatório? De onde surgirão esses leitos que, pelo menos até onde conheço, simplesmente não existem nem para a demanda rotineira de pacientes?

Sempre, SEMPRE mesmo me perguntei: se existem bilhões e mais bilhões para a construção de estádios que começaram a ser erguidos com a promessa de utilizarem apenas verbas privadas e “de repente, não mais que de repente”, o quadro mudou no meio do caminho; se existe a possibilidade de oferecer de presente um estádio para a empresa de um bilionário administrar, se existem ofertas e mais ofertas de auxílios a países vizinhos (ou não) em dificuldade, por que não é possível existir um investimento pesado em saúde pública no que diz respeito ao problema dos tóxicos? Não digo isso na instância da polícia combatendo traficantes – porque é um tema que daria um post por si só. Digo isso no auxílio real ao dependente e sua família, condições dignas de recuperação e reinserção na sociedade tratando-o como o ser humano que de fato é – e não o marginalizando cada vez mais – fazendo com que ele não tenha apenas seu organismo desintoxicado, mas sim sua alma. Estruturas assim custam caro? Claro que sim. É necessária estrutura física e humana, e muitas, mas muitas vagas, tantas quanto os estádios estão oferecendo e que essas certamente não serão ocupadas. Ou alguém vai me convencer de que um estádio em Brasília, em Manaus ou em Cuiabá terá, sempre, quarenta ou cinquenta mil lugares ocupados? Não né.

Esse é o poder do “viva essa energia” exercido sobre todos os brasileiros. Eu realmente não imagino o resultado de uma hipotética enquete sobre esses dois eventos supracitados. Não sei se a maioria das pessoas seria contra ou a favor, pois tenho ciência de que estamos muito longe de ter uma sociedade realmente crítica (vide quadro político), mas tenho plena convicção de que se as pessoas tivessem que escolher entre o seu bem estar e qualquer outra coisa, escolheriam o bem estar. Bem estar esse proporcionado através do velho chavão: “educação, saúde, segurança e transporte público de qualidade”...que de tão velho já está desgastado e quase démodé, mas ainda longe de acontecer em sua plenitude.

Não quero com tudo isso, dizer que não acredito no Brasil e no seu poder de desenvolvimento. Acredito. Sou uma eterna otimista. Mas tenho ciência de que isso só acontecerá quando vier à tona uma reforma política. Não de estruturas políticas, mas de pensamento. Só acredito que alguma coisa vai mudar quando a sociedade tiver criticidade suficiente para se libertar do que é vendido, sair da caverna e basear suas decisões no que é real, e não nas sombras. Abandonar todo e qualquer fanatismo político e ideológico e entender que, como discutimos na mesma aula de sábado, a maioria dos problemas tem sua solução (justiça) na ética e não na elaboração de uma lei atrás da outra, e cada vez que fugimos dessa realidade nos afastamos mais e mais da real evolução.

Enquanto as relações de poder forem maiores do que o poder das relações, uma ditadura camuflada continuará permeando a nossa história. A chave pra mim, como não é novidade nenhuma, é a educação. É por isso que estudo, leio, penso, reflito, questiono. Porque acredito na mudança e espero [participar e] vê-la acontecer.





domingo, 12 de maio de 2013

A conjugação do verbo AGIR.

Eu ajo, tu ages, ele age...nós agimos, vós agis, eles agem. Qualquer que seja a conjugação escolhida para ganhar uma definição, a primeira é a mais difícil. Uma reação bem comum entre os professores (e me incluo nessa lista) é de, ao primeiro questionamento de por que o fulaninho age assim, começar a discorrer praticamente uma tese para responder: porque a família é desestruturada, porque é carente, porque quer chamar atenção, porque ...porque...porque... É a síndrome do “PORQUE”!

Na última aula da pós recebemos o seguinte “tema”: elaborar um texto respondendo a questão: Por que ajo como ajo? A minha primeira resposta mental foi: Meu Deus, não sei! Isso porque sou uma pessoa extremamente imediatista. Vim pra casa pensando, pensei, pensei, pensei...e não cheguei a uma conclusão só, mas a várias.

Ajo como ajo por uma cadeia de coisas intercaladas e responsáveis pelo desenho do que sou. Desde criança quis ser professora, desde minhas primeiras lembranças adorava brincar com cadernos e fazer de conta que dava aula ao meu irmão, e tenho certeza que isso foi se desenhando, mesmo sem que eu percebesse, no decorrer da minha formação (não acadêmica, mas sim pessoal).

Sou de uma família simples do interior, fui criada fora de shoppings e aglomerações, fui criada na rua correndo, subindo em árvore, pulando amarelinha e andando de bicicleta, por isso enquanto adulta e profissional, sempre ofereci aos meus alunos o máximo de ludicidade possível, independente da idade. Como falta ludicidade no mundo. Essa infância que foi tão maravilhosa não pode se perder no tempo e no espaço, tem que ser dada de presente.

Como já escrevi no post anterior, sou extremamente musical. Não fico um minuto sem música, se puder. O que quero expressar e me faltam palavras, nunca, mas nunca mesmo faltam músicas. Isso pode ser porque minha família é tão musical quanto eu. Viajámos em uma época em que ter aparelho de som com cd no carro era luxo para poucos, e o toca fitas nem sempre funcionava, então cantávamos. Cantávamos estrada adentro... Parávamos, ríamos, e cantávamos de novo. O meu ser musical não é só meu, meu irmão tanto quanto é movido pela música. Está realizando, passo a passo, o sonho de ser músico e com isso realiza o meu também. Quanto orgulho.

Sou absurdamente crítica, muitas vezes até demais, sendo inclusive um tanto quanto impertinente. Sou filha de professora, sobrinha de professora, neta (emprestada) de professora. No decorrer de toda a minha vida vejo o descaso com a educação e os profissionais que a fazem, no peito e na raça, acontecer. Cresci vendo meu pai discursar sobre a situação política do país e compartilhando com sua indignação perante a mesma. Conforme a adolescência e Legião Urbana foram chegando, me tornei, de certo modo, mais crítica que ele. Se hoje articulo e exponho minhas ideias sempre que posso, é porque minha primeira Ágora foi o seio da minha família.

Há quase 11 anos ingressei na faculdade e comecei a trabalhar em sala de aula. Foi, acredito, a primeira realização da minha vida. Tive a sorte de entrar no mercado de trabalho fazendo o que eu tinha a certeza de ser a MINHA profissão. Os desafios eram tão, mas tão imensos que às vezes faltava até ar, mas lá estava minha mãe e sua maestria em lecionar, me dando socorro atrás de socorro. Quanto mais eu aplicava em minha prática pedagógica o que ela falava, mais fácil, tranquilo e compensador ficava meu trabalho. Com isso aprendi a sugar (no bom sentido) tudo que as pessoas mais experientes que eu e que – no meu ponto de vista – realizavam um bom trabalho tinham a me oferecer de informação e experiência. Tornei-me uma verdadeira esponja. Sou assim até hoje.

Tenho, além de tudo isso, autores, músicos, enfim, pensadores aos quais recorro há muito tempo e que são responsáveis por parte do meu agir. Paulo Freire, sem dúvida, tornou-se um deles muito cedo e muito da minha concepção de agir profissional vem dele. Assim como Rubem Alves. Como, pra mim, uma pessoa é um ser único independente de onde tenha que aplicar suas convicções, esses mestres do pensar se tornaram também, de certa forma, mentores pessoais.



Apesar de Durkheim conseguir definir o que penso em uma frase, mesmo escrevendo tanto não consegui responder o questionamento “Por que eu ajo como ajo” de forma sucinta. É que, pra mim, isso é impossível. Ajo como ajo por influências da minha criação, por influências das informações que recebi durante toda minha vida até agora, por influências das pessoas que considero exemplos, pela maturidade que é adquirida dia a dia e pela falta de maturidade que descubro que ainda tenho... Pelas escolhas que a soma de tudo isso me faz tomar o tempo todo e pelas responsabilidades que essas escolhas derrubam no meu colo.

Ajo como ajo porque em alguns momentos da minha vida alguém me falou que era certo, e em outros eu mesmo percebi. Isso não quer dizer que eu acerte o tempo todo. Se fosse assim, teria uma vida estagnada, porque o impulso de continuar vem das tentativas de acertar que acabaram não dando certo e trazendo uma nova empreitada.

E como não poderia deixar de ser, a música. Eu era um Lobisomem Juvenil (Legião Urbana) ilustra um pouco de por que ajo como ajo, mesmo esse agir sendo cheio de incertezas e contradições... “Qual foi a semente que você plantou?/Tudo acontece ao mesmo tempo/Nem eu mesmo sei direito/O que está acontecendo/E daí de hoje em diante/Todo dia vai ser o dia mais importante...”

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segunda-feira, 6 de maio de 2013

Theodor Seixas? Raul Adorno? Sei lá...já não sei.

Quero explicar o título de hoje contextualizando o porquê do mesmo. Durante essa semana que passou li alguns textos sobre o pensador Theodor Adorno e MEU DEUS, que confusão. Os miolos estavam dando nós atrás de nós e cadê que a luz vinha? Parecia apagão.

Sábado, durante a aula de Ética na pós, aconteceu uma ampla discussão cheia de exemplos e partindo disso comecei (sim, só comecei) a entender o pensamento adorniano e respeitá-lo muitíssimo. Explico: além de ser um pensador extremamente crítico ao seu tempo e, mesmo seu tempo sendo há décadas atrás, continua extremamente atual; exalta a arte como ferramenta sublime para essa crítica. Quer coisa mais linda? Quem diria que eu, tão resistente à Filosofia como sempre fui, encontraria em uma referência do pensamento filosófico referências sobre o que acredito? Quantas vezes já ilustrei meus posts com músicas? Quantas vezes já trabalhei durante semestres inteiros em sala de aula com música? Quantas vezes, na falta do que falar e precisando me expressar carrego comigo a música? Quantas vezes? Nem sei. Desde sempre. Encontrar alguém que diga, com toda a propriedade do mundo, que isso não é um efeito tardio da adolescência, mas sim uma manifestação. É uma conquista!

Depois de passar uma manhã toda conversando, lendo, trocando ideias e começando a conhecer Adorno, saí da universidade cheia de pensamentos e questionamentos na cachola e um monte de sugestões de literatura. Li “Educação Após Auschwitz” - que não tinha tido tempo antes da aula – e fiquei arrepiada com a forma com que ele desenha todo um contexto. Quantas, mas quantas vezes usei a questão do Holocausto para exemplificar e até mesmo mediar questões de marginalização delicadíssimas no trabalho com um determinado grupo de adolescentes? Quantas vezes declarei meu amor eterno pela história de Olga Benário Prestes e li e reli o capítulo “A caminho da morte” do livro "Olga", que narra os últimos momentos de angústia que precederam sua morte? Muitas, mas muitas vezes. Mais uma identificação com Adorno? Certamente que sim.

Fiquei pensando, associando, e lembrando do filme que assistimos – meu esposo e eu – semana passada: “Gonzaga,de Pai pra Filho”. Como não associar um assunto ao outro? Falando em música e crítica social, um exemplo é Luiz Gonzaga que na sua simplicidade sertaneja compôs, dentre tantas outras, o clássico “Asa Branca”. Quer crítica maior à situação de esquecimento e negligência sofrida pelo Nordeste? “Que braseiro, que fornalha/Nem um pé de plantação/Por falta d’água perdi meu gado/Morreu de sede meu alazão (...) Hoje longe muitas léguas/Numa triste solidão/Espero a chuva cair de novo/Pra mim voltar pro meu sertão” Pra quê mais clareza? De brinde ainda ganhamos o imensurável prazer de ouvir pequenos trechos de músicas do Gonzaguinha. No momento em que, na aula, falávamos de músicas que passaram pela censura mesmo com intenso conteúdo político por serem inteligentes demais a ponto de camuflar a mensagem, não teve como não pensar em Gonzaguinha. Em um contexto diferente do pai, com ideias renovadas e mais contestadoras, soube usar as palavras com maestria para deixar, sutilmente (nem sempre), sua criticidade pairando no ar. “O trem” e a indescritível “O que é, O que é” são exemplos do seu pensamento crítico e contestador.

Para encerrar com chave de ouro um sábado cheio de reflexões, ao chegar em casa depois do trabalho fomos procurar um filme pra relaxar (mas sem comédia romântica hollywoodiana, né! rsrs) e encontramos, como um presságio – ou melhor, um convite à reflexão, o documentário “Raul – O Início, O Fim e o Meio”. Olha que coisa linda. A primeira coisa que me veio em mente foram lembranças da minha infância e comecinho de adolescência, quando depois do almoço o tio Jose pegava o violão e as revistinhas e todos nós, em casa, entoávamos Raul até cansar. Era “Eu nasci há dez mil anos atrás”, “Gita”, “Cowboy fora da lei” (que particularmente eu achava o máximo), “Maluco Beleza”, “Al Capone”, “A maçã” (que minha mãe adorava)...e por aí ia. “Ouro de Tolo” era interpretada pelo meu tio Márcio e o Osmar, grande amigo da nossa família. Olha que legado maravilhoso todos me deixaram.

Depois do momento nostalgia, durante o documentário fui pensando em relações diretas entre Raul e Adorno – por isso o título. Raul era, em sua essência, questionador. Desde antes de começar a cantar, quando ainda era só fã de Elvis, já deixava a gola erguida para desafiar a mãe que o mandava abaixar. Como disse um dos entrevistados, “Raul, respirando, era questionador”. Várias filmagens antiquíssimas mostradas dele trazem entrevistas em que repetia quase que como um mantra que fazia músicas para dizer aquilo que, em sua opinião, tinha que ser dito. Não coloco aqui em jogo suas loucuras e viagens, mas sim a genialidade da sua crítica. “Ouro de Tolo”, “Eu também vou reclamar”, “Aluga-se”, "O trem das Sete" e “Sociedade Alternativa” são exemplos clássicos da sua acidez misturada com o jeito de certa forma caricata de sua personalidade. Mas o ponto alto da minha comparação foi quando ele afirmou por A mais B que não era ninguém para criar conceitos, pois cada um que crie os seus. Eu simplesmente pasmei diante da TV. É recompensador, para se dizer o mínimo, enxergar em um assunto que apesar de complexo começa a lentamente se esclarecer, um link claro e palpável com referências que sempre estiveram presentes em minha vida.
 
Preciso agradecer aos meus pais – minha mãe educadora e meu pai admirador eterno da música raiz – por poder ter ouvido, desde criança, de Tonico e Tinoco à Pink Floyd. Agradeço por ter crescido em um ambiente cheio de músicas das quais muitas são eternizadas pela mensagem que apresentam. Agradeço por, junto com a minha educação, me presentearem com um mundo com muito mais arte do que entretenimento. Porque o entretenimento passa, e a arte jamais. Por isso carrego comigo dois amores que não se tornaram sucessos na minha geração, muito pelo contrário, um da década de 80 (Legião Urbana) e outro da década de 60 (The Beatles), mas que me acompanham desde sempre e estarão comigo para todo o sempre.

E que venham muitas mais reflexões...muitos mais Adornos e Rauls, muitos mais pontos de interrogação quase que imbatíveis...muitos links e descobertas. E que venham...por que “Controlando a minha maluquez, misturada com minha lucidez vou ficaaaaaaaaaaaaaaaaaar, ficar com certeza Maluco Beleza...”



quarta-feira, 1 de maio de 2013

Ética ou falta de?


Final de semana passado – dia 26/04 para ser mais exata – se deu início minha tão sonhada especialização. A alegria de voltar para uma sala de aula, voltar a aprender, voltar a estudar é simplesmente imensa. As expectativas, lógico, são tão imensas quanto. Na verdade é uma cadeia de expectativas: quando se está no Ensino Fundamental o pessoal do Ensino Médio é super descolado. Quando se está no Ensino Médio, a galera da faculdade é mega independente. Quando se está na faculdade os alunos da pós são super estudiosos...quando terminar a pós escrevo sobre qual será a impressão dos mestrandos. Enfim, as aulas foram deliciosas, em especial a aula de sábado, cheia de discussões extremamente pertinentes ao profissional da Educação.

Antes de escrever sobre o que realmente me chamou atenção, quero salientar que a postura dos acadêmicos de licenciaturas (nunca tive aula com outros) me entristece. Tanto na aula de sexta quanto na de sábado a conversa paralela – o famoso ti-ti-ti – foi simplesmente gigante. Foi suficiente pra me deixar constrangida mediante os professores pelo desrespeito da turma. É uma postura indesculpável para qualquer acadêmico, mas para uma turma de, em sua grande maioria, professores, a situação chega a ser surreal.

Mas voltando ao assunto, em um dado momento em uma discussão no sábado entrou em questão a relação Escola X Família, e algumas colocações foram, na minha humilde opinião, bem preocupantes. A maioria esmagadora de educadores (principalmente da educação infantil) simplesmente estabeleceram que o problema da educação das crianças com dificuldade de limites, concentração, foco ou o que quer que seja é a falta da participação dos pais na escola. Não quero dizer que discordando dessa afirmação concordo com evasão dos pais do ambiente escolar, mas sim que como é uma situação que foge do controle da escola, o olhar precisa ter outro enfoque: o que eu, em minha prática docente, tenho feito interessar, cada vez mais, o educando?

Ninguém, absolutamente nenhuma das pessoas falou da sua prática, de questionamentos e avaliações pessoais, de dúvidas ou incertezas, de pesquisas e estudos. Tudo isso permeia a prática pedagógica. Quando um educador para de questionar a sua própria prática e cai em um conformismo de que o aluno “dá trabalho” por problemas externos e não há nada que ele possa fazer, a possibilidade da educação desencadear uma falência sem volta é muito grande.

Eu espero do fundo do meu coração enxergar, no decorrer das aulas, uma mudança de concepção nesse sentido. Eu espero nas conversas, discussões, debates e seminários, ver uma postura com mais autocrítica e responsabilidade dos colegas. Eu espero poder generalizar ao falar que o professor é um formador de opinião, pesquisador e produtor de conhecimento.

A educação é um direito garantido a todos. Mas o aprendizado quem tem a obrigação de oferecer e mediar é o professor que está em sala de aula por um motivo: não é para ficar rico, não é para ter status, não é para ser popular...é porque AMA sua missão e a leva consigo da maneira mais séria e comprometida possível.
Eu espero ver essa mudança de comportamento começando pelo respeito ao espaço em que somos privilegiados por ter acesso. Um espaço de extrema troca de experiências e crescimento profissional. Um espaço de amadurecimento e evolução, onde o foco deve ser aprender sempre, e cada vez mais.

Por hoje é isso. Tenho outros tópicos em mente, mas os abordarei semanalmente. A beleza de voltar a estudar é que a cabeça volta a funcionar mais e mais e mais...nada se acomoda ou atrofia. Delícia!